Carlos A. Inada
São Paulo
Parece haver uma controvérsia no mundo do silêncio. Publicamos alguns posts sobre John Cage e o silêncio (aqui e aqui), explorando as relações entre o silêncio de Cage e questões da meditação e da criação.
Há pouco, 2 iniciativas dão um “propósito” ao silêncio, em certo sentido trazendo o silêncio para o mainstream, transformando-o em modismo. A primeira iniciativa é “CAGE AGAINST THE MACHINE” [Cage contra a máquina] (em maiúsculas), que começou como uma piada. Seu autor criou um grupo no Facebook “como uma diversão. Tenho um histórico em criar coisas ridículas nas redes sociais, e o Facebook é ótima plataforma para isso. [...] Mas, por alguma razão, as pessoas responderam à ideia de ter uma ‘canção silenciosa’ na lista dos mais vendidos no Natal, e a coisa começou a crescer, até chegar ao nível atual, com mais de 30 mil membros” (45 mil quando escrevi este texto).
Assim, “CAGE AGAINST THE MACHINE” é agora uma campanha para que os 4’33” de silêncio de John Cage atinjam o topo da lista dos mais vendidos no Natal, em referência a campanha similar que, em 2009, colocou nessa posição a banda Rage Against the Machine. Todos os lucros serão doados para instituições de caridade.
Há semanas, foi anunciada outra iniciativa, de uma gravação silenciosa em prol da Royal British Legion, com Thom Yorke, Bryan Ferry, Bob Hoskins e o primeiro-ministro britânico David Cameron, entre outros. A faixa “2 Minute Silence” provocou críticas, a despeito das boas intenções do projeto:
Pessoalmente fiquei revoltado ao ouvir falar da faixa de 2 minutos de silêncio reunindo celebridades. Teorias de conspiração e hipocrisia à parte, ironicamente é uma ideia ridícula tentar dar algum tipo de validade genuína a um conceito inerentemente absurdo (uma faixa silenciosa no topo das paradas de Natal).


