Foto: Dansbyrån
Alina Duchrow
Túnis
Existem coisas sobre as quais quero falar e que, pura e simplesmente, não podem ser representadas. São do tipo de coisas que só passam a existir se forem apresentadas. São coisas que nem eu sei que existem, que nunca ouvi falar e que nem sequer desconfio da sua presença. E é por isso que quero falar delas: porque quero conhecê-las. E dá-las a conhecer. Sem filtros ou intermediários. Em tempo real.
João Fiadeiro, entrevista a Annie Suquet
Em entrevista a Annie Suquet, do Centre National de la Danse em Paris, o coreógrafo João Fiadeiro explica o método “Composição em tempo real”, que ele desenvolve e sistematiza desde 1995. O método fornece ferramentas para que o praticante abdique de sua condição de “criador”, assumindo uma posição de “mediador” e “facilitador” de acontecimentos, quebrando hábitos e padrões, deixando que as coisas aconteçam por si.
O espaço do estúdio é dividido em dois com um fita de papel. Convenciona-se que um espaço é “o fora” e outro, “o dentro”. Os participantes começam todos do lado “de fora”, e olham para o lado “de dentro”. O espaço “de dentro” funciona como um espaço-potência que, com o tempo, absorverá o espaço “de fora” (e vice-versa), anulando qualquer distinção entre os dois. Quando isso acontece, quando quem estiver fora “se sentir” no interior e quem estiver dentro “se sentir” no exterior, é porque o método esta funcionando.
Em um primeiro momento, o espaço fica “em aberto”, até que alguém tome a decisão de agir sobre ele, abrindo assim as “hostilidades” e dando início ao processo de composição em tempo real. A decisão de agir tem de ser absolutamente espontânea. Só assim é possível assumir responsabilidade pelos gestos realizados. Ser responsável por aquilo que se faz é condição sine qua non para o sucesso do trabalho.



