Parece haver um grande mal-entendido na maneira como o princípio fundamental do mandala foi apresentado às pessoas. Portanto, vale a pena trabalhar melhor a ideia de mandala — o que é mandala, por que é mandala, como é mandala. Isso envolve trabalhar com nossa situação de vida, nossa existência fundamental, todo nosso ser.
Para começar, deveríamos discutir a ideia de caos ordenado, que é o princípio do mandala. É ordenado, porque surge com um padrão; é caos, porque trabalhar essa ordenação é algo confuso.
O princípio do mandala inclui o mandala do samsara e o mandala do nirvana, que são iguais e recíprocos. Se não compreendemos o aspecto samsárico do mandala, não existe tampouco nenhum aspecto nirvânico do mandala.
A ideia de caos ordenado é a de que somos metodicamente confusos. Em outras palavras, a confusão é intencional. É intencional no sentido de deliberadamente decidirmos ignorar a nós próprios. Decidimos boicotar a sabedoria e a iluminação. Queremos continuar com nossas viagens, com nossa paixão, agressão e assim por diante. Por causa disso, criamos um mandala, um círculo autoexistente. Criamos a ignorância deliberadamente, então criamos percepção, consciência, nome e forma, consciência dos sentidos, tato, sensação, desejo, cópula, o mundo da existência, nascimento, velhice e morte. É assim que criamos o mandala em nossa existência diária como ela é.
Gostaria de apresentar o princípio do mandala desse ângulo cotidiano para que se torne algo trabalhável, e não algo puramente filosófico ou psicológico, uma versão budista da teologia. Desse ponto de vista, o caos ordenado é ordenado, porque criamos a base desse mandala. Nós nos relacionamos com ele como a base sobre a qual podemos jogar nossos jogos de hipocrisia e aturdimento. Esse jogo é usualmente conhecido como ignorância, e tem três lados: ignorância de si mesma, ignorância nascida no interior e ignorância da compulsão, ou ignorância da medida imediata. (Na terceira ignorância, tendo desenvolvido um sentido de separação da base, existe um sentido de que imediatamente temos de fazer algo a respeito disso.)
Na medida em que o mandala se baseia em nossa ignorância ou confusão, não faz sentido discuti-lo a não ser que saibamos quem nós somos e o que nós somos. Essa é a base para discutir o mandala. Não faz sentido discutir divindades, dizer quais estão localizadas em que parte nos diagramas do mandala, e os princípios que possivelmente nos despertariam de nossa confusão para um estado desperto. Seria ridículo discutir essas coisas neste ponto ― completamente fora de questão. Temos de saber primeiro o que é mandala, por que o mandala existe, e por que uma noção como a noção de iluminação existe.
Chögyam Trungpa, "Mandala of unconditioned energy", in Orderly chaos

