Desde seu surgimento, no início do século XIX, a fotografia transformou drasticamente a maneira como vemos arte. Por exemplo, praticamente todos nós temos familiaridade com o Davi de Michelangelo, embora poucos de nós tenham tido a oportunidade de ver a obra pessoalmente. Em sua maior parte, nossas impressões se baseiam em fotografias. Crescemos acostumados a ver originais por meio de reproduções.
A partir do próximo domingo (1.o de agosto), o Museu de Arte Moderna de Nova York exibirá uma coleção de cerca de 300 fotografias de mais de 100 artistas, na exposição The original copy: photography of sculpture, 1839 to today (A cópia original: fotografia de escultura, de 1839 até hoje). Com curadoria de Roxana Marcoci, essa exibição oferece uma oportunidade para examinar as interseções entre fotografia e escultura. A exposição examina fotos cujo tema vão de objetos inanimados a corpos em atuação.
Horst P. Horst. Figurino para Sonho de Vênus, de Salvador Dalí, 1939. The Museum of Modern Art, Nova York. Doação de James Thrall Soby. © Horst P. Horst/Art + Commerce
A natureza da fotografia desloca as 3 dimensões da escultura para as 2 dimensões impressas. O ponto de vista do observador é limitado ao escolhido pelo fotógrafo. O contexto do lugar pode ser removido ou enfatizado. Em suma, o fotógrafo oferece uma perspectiva diferente para nossa visão de obras de escultura.
Nas palavras de Walter Benjamin, em seu ensaio “A obra de arte na era de sua reprodução mecânica”,
evidentemente abre-se para a câmara uma natureza diferente da que se abre para o olho nu ―que seja porque um espaço inconscientemente penetrado é substituído por um espaço conscientemente explorado pelo homem. [...] Aqui a câmara intervém com os recursos de rebaixar ou elevar, suas interrupções e isolamentos, suas extensões e acelerações, suas ampliações e reduções. A câmara introduz-nos na óptica inconsciente assim como a psicanálise introduz-nos nos impulsos inconscientes.
Ao ver a obra fotográfica de uma escultura, pode ser interessante explorar essa experiência da “óptica inconsciente”. Sabemos sem nenhuma dúvida que estamos vendo uma imagem bidimensional, mas a substituímos por um “espaço inconscientemente penetrado”. Intuimos um espaço a partir de variados sinais visuais da fotografia, junto com informações externas do objeto. Em algumas imagens conseguimos com facilidade intercambiar essas duas maneiras de ver.
Man Ray, Criação de pó, 1920, impresso c. 1967. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Aquisição, 1969 (69.521)
Um de meus exemplos favoritos de fotografia de escultura é Criação de pó (Dust breeding), de Man Ray, de 1920. Essa foto documenta A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo (também conhecida como O grande vidro) depois que a obra acumulou pó durante um ano. May Ray usou uma exposição de 2 horas, o que ajudou a criar a rica textura da imagem. Junto com porções do padrão de O grande vidro, a textura do pó cria uma paisagem surreal, extraterrestre. A própria imagem é misteriosa, com muito poucos pontos de referência que capturem a atenção. Mesmo assim, a imagem é cativante em sua combinação de padrões geométricos criados pelo homem e rudes formas orgânicas de pó.
Esse ato de deixar a obra em andamento acumular pó poderia ser visto como um sutil ato de performance. Essa imagem serve como único documento desse ato. Embora não seja referenciada na imagem, podemos inferir com facilidade a disposição do estúdio de Duchamp. Essa foto marca uma fase decisiva no desenvolvimento da obra-prima de Duchamp. Depois de feita a foto, Duchamp limpou quase completamente O grande vidro, deixando uma seção dos cones coberta com pó, que ele fixou permanentemente à placa de vidro com uma argamassa diluída. Com essa informação, intuimos o espaço histórico no qual o objeto existe.
Marcel Duchamp, A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo (O grande vidro). 1915-23. Philadelphia Museum of Art
Esta exposição do MoMA oferece uma oportunidade fantástica para que exploremos novos métodos de ver a fotografia e a escultura. Essa experiência poderia servir como um lugar de onde investigar nossa maneira de perceber o mundo. A cópia original: fotografia de escultura, de 1839 até hoje estará no MoMA de 1.o de agosto a 1.o de novembro.
Veja também o slideshow da exposição no site do jornal The New York Times.



