Joseph Beuys, “O silêncio de Marcel Duchamp é supervalorizado” (1964). © 2009 Estate Of Joseph Beuys / Artists Rights Society (Ars), NY / Vg Bild-Kunst, Bonn.
Na última semana de julho, realizamos o primeiro Encontro Dharma/Arte. Em breve publicaremos uma nota sobre o encontro, incluindo as sugestões e comentários que recebemos por e-mail. Na mesma semana, o SESC Pinheiros promoveu a palestra “Joseph Beuys e a Universidade Livre Internacional”, com Antonio D’Avossa, curador da exposição Joseph Beuys: a revolução somos nós, que será inaugurada em setembro.
O que aproxima ambos os eventos? Entre os aspectos da obra de Beuys que estabelecem um vínculo entre ela e a proposta de Dharma/Arte estão sua noção expandida de arte, que inclui todas as atividades humanas; a valorização do poder criativo de todos os seres humanos, sintetizada em uma frase do poeta Novalis recuperada por Beuys: “Todos são um artista”; e, enfim, o papel que essa criatividade coletiva pode ter para transformar a sociedade.
Em sua palestra, Antonio D’Avossa comentou a transmissão realizada por Beuys em 1964: “Das Schweigen von Marcel Duchamp wird überbewertet” (“O silêncio de Marcel Duchamp é supervalorizado”). De acordo com D’Avossa, a busca da escultura social da criatividade coletiva contrapõe-se ao silêncio, sendo este aproximado do isolamento, do desejo de proteger-se. A escultura social dependeria da palavra, da comunicação ― e é sintomático que essa performance de Beuys tenha tido a forma de uma transmissão de TV.
Joseph Beuys terminou a escola de arte e tornou-se professor, com muitos alunos que o adoravam. Estava sempre com o mesmo chapéu de feltro e o mesmo colete de pescador com os bolsos cheios de bugigangas como pilhas, fitas, clipes [...]. Somem-se a isso seus olhos azuis e intensos, e seus lábios sensíveis e carnudos, e talvez possamos compreender por que esse visionário carismático se tornou um ícone em toda a Europa. Suas performances, registradas em fotografias, tornaram-se legendárias [...].
Mas representar sua própria liberação pessoal em confinamento solitário não era o bastante. Ao propor suas ideias de “arte social”, ele se tornou um flautista a conduzir milhares de jovens alemães em uma cadeia humana que deixou no seu encalço longas fileiras de carrinhos de supermercado, árvores transplantadas, máquinas de vender, e até mesmo pesados pedregulhos. Esses marcos estendiam-se por cidades inteiras, bloqueando o trânsito e cruzando campos de futebol. Assim surgia um novo tipo de artista: parte xamã, parte um pária, tanto herege como inquisidor, às vezes um bode expiatório, sempre astucioso. Do alto de sua apoteose artística, Beuys rabiscou em um quadro-negro uma enérgica observação que ninguém ousou apagar: “O silêncio de Marcel Duchamp é supervalorizado”.
“La rivoluzione siamo Noi” (1972). © 2009 Estate Of Joseph Beuys / Artists Rights Society (Ars), NY / Vg Bild-Kunst, Bonn.
Historiadores da arte como Benjamin Buchloh, Stefan Germer e Rosalind Krauss, entre outros, apontam que, embora defendesse o poder social da arte para a transformação política, Beuys teria subestimado os limites impostos a essas aspirações pelo museu de arte e pelas redes do mercado de arte, que servem a aspirações menos utópicas; teria subestimado, também, a função de referência e de dependência que essas instituições exercem na criação de sentido para os objetos artísticos. Para Buchloh, “ao não reconhecer a formação coletiva e contextual de significado, Beuys tentou prescrever e controlar os significados de sua arte, frequentemente na forma de duvidosos códigos simbólicos ou esotéricos”.
Assim, quando Beuys defende o potencial da arte como meio de mobilização coletiva e se opõe ao silêncio de Duchamp, ele parece aceitar as ambiguidades da mercantilização da arte. Discutir o silêncio pode ser um contrassenso, mas nesse contexto é uma discussão necessária. O que é o silêncio? O que ele significa? A possibilidade de mobilização coletiva somente é possível com a negação do silêncio? Ou o silêncio é requisito para diálogos significativos? Somente o silêncio é capaz de romper com a arte-mercadoria? Essas questões parecem ser relevantes ainda hoje, e certamente elas são centrais à perspectiva contemplativa e seus silêncios, quando pensamos em processos criativos, individuais e coletivos.



