“Vitória sobre a guerra” é uma máxima usada pelo mestre budista Chögyam Trungpa, e é tema de uma atualização recente do site de Bill Scheffel sobre o princípio do drala:
Todo um corpo de ensinamentos de Chögyam Trungpa-Lorde Mukpo pode ser apreendido em uma frase que ele ofereceu a seus estudantes: “Vitória sobre a guerra”. Inicialmente, esse corpo de ensinamentos tinha a ver com proteção; uma palestra budista, por exemplo, precisava ser dada sob um conjunto correto de circunstâncias a fim de ser eficaz. Certa precisão, decoro e beleza precisavam ser estabelecidos para que o público se abrisse aos ensinamentos. O público precisava sentir-se seguro e acolhido, e ao mesmo tempo provocado para ter clareza, para despertar.
Lorde Mukpo traduziu esses princípios em questões como agressão, militares e guerra. Qualquer sociedade precisa de membros que façam o juramento de protegê-la (bombeiros, policiais, soldados); o pacifismo nem sempre é possível, mas simplesmente confrontar a agressão com mais agressão é contraproducente, equivocado e geralmente horrível: guerra gera guerra. Tive nas duas últimas semanas uma oportunidade de explorar possibilidades de “Vitória sobre a guerra”.
Bill Scheffel, “Vitória sobre a guerra” (em inglês)
Em sua discussão da prática dos Dorje Kasung como introduzida por Chögyam Trungpa (contexto em que a máxima “Vitória sobre a guerra” é usada), James Gimian e Kidder Smith discutem as relações dessa prática com a Arte da guerra, de Sun Tzu:
Porque começa reconhecendo que o conflito é parte integrante da vida humana, seus ensinamentos têm sido invocados algumas vezes simplesmente como um meio implacável de conquista. Mas, quando lido mais atentamente, o livro mostra como conquistar sem agressão, tanto no caso de grandes conflitos como nos pequenos, pessoais ou nacionais. Uma de suas estrofes mais famosas afirma:
Cem vitórias em cem batalhas não é o mais habilidoso.
Subjugar o exército do outro sem batalha é o mais habilidoso.(Capítulo 3)
Isso é menos uma estratégia do que uma compreensão profunda de nossa conexão com o mundo. Sua perspectiva pode ser representada por aquilo que a Arte da guerra chama de “tomar o todo”. Tomar o todo significa conquistar o inimigo de uma maneira que conserve intato o que for possível ― tanto nossos próprios recursos como aqueles de nosso oponente. Isso não exclui o uso da força, mas, quando a força é usada, busca-se preservar as possibilidades e ter em consideração o bem-estar do outro.
Tal vitória mantém disponível a base sobre a qual algo será construído, tanto para nós como para nosso antigo adversário. A destruição, ao contrário, deixa apenas devastação, não apenas para os derrotados ― suas moradas e sua terra ―, mas também para os conquistadores e suas tentativas de afirmar sua “paz” muito tempo após a batalha. A verdadeira vitória é uma vitória sobre a agressão, uma vitória que respeite a humanidade do inimigo e portanto torne desnecessário um novo conflito. Cada um de nós já possui os elementos dessa sabedoria. Ela não é nem chinesa, nem tibetana, e não se origina em nenhuma fonte única exterior a nós.
James Gimian & Kidder Smith, “A Buddhist military”, in Fabrice Midal (ed.). Recalling Chögyam Trungpa.
Vale a pena conferir o site de Bill Scheffel (em inglês) e sua exploração das possibilidades de “Vitória sobre a guerra” no contexto da sociedade contemporânea. Um exemplo é a visita de Bill à convenção do IVAW ― Iraq Veterans Against the War (Veteranos do Iraque contra a Guerra):
Esperava encontrar seres humanos gentis, maduros e comprometidos, que fossem uma inspiração para os outros. Encontrei isso e mais. Era um grupo de pessoas de diversas idades e de ambos os sexos, pessoas afáveis, profundas, com belas tatuagens, eloquentes, corajosas, mutiladas (pude ver algumas delas) e talvez acima de tudo pessoas criativas. Uma colônia de líderes artistas e ativistas.
O vídeo abaixo apresenta Jacob George e seu irmão Jordan, e sua inspiração e coragem para propor uma mudança no paradigma da guerra. Jacob e Spencer Hindmarsh “estão cruzando os Estados Unidos em suas bicicletas, junto com outros veteranos, até que nosso governo ponha um fim à ocupação do Iraque e do Afeganistão”:
Você apoia a guerra? Tem um emprego? Paga impostos? Então sim, você apoia a guerra. Você na verdade apoia duas guerras. Estamos aqui hoje para pedir a cada um de vocês que DEIXE DE APOIAR A GUERRA. Mas como, como deixamos de apoiar a guerra? Como paramos a guerra? Na medida em que o governo eleito por nós decidiu continuar a financiar essa guerra com dinheiro que vem de seu salário, a primeira coisa que você pode fazer é DEIXAR O SEU EMPREGO. Se você se sentir estimulado o suficiente a não apoiar a guerra para fazer isso, talvez você se interesse pelo passo seguinte. Pegue uma bicicleta e junte-se a nós para um passeio. Iremos de cidade em cidade, espalhando esta mensagem de pessoa a pessoa e não pararemos até que AMBAS AS GUERRAS TERMINEM!
Criatividade, ativismo, “vitória sobre a guerra”. Qual a parte de cada um de nós no processo de transformar paradigmas?



