Desde seu princípio, no início do século XX, a neurociência vem sendo bem-sucedida e conquistando intimidade com o cérebro. Os cientistas reduziram nossas sensações a um conjunto de circuitos discretos. Forneceram imagens de nosso córtex quando ele pensa a respeito de si mesmo, e calcularam a forma dos canais íon, que são manipulados segundo especificações subatômicas.
No entanto, apesar desse vasto conhecimento material, ainda somos estranhamente ignorantes em relação àquilo que nossa matéria cria. Conhecemos a sinapse, mas não conhecemos a nós próprios. Na verdade, a lógica do reducionismo traz a implicação de que nossa autoconsciência é realmente uma elaborada ilusão, um epifenômeno gerado por algum estremecimento elétrico no córtex frontal. Não há nenhum fantasma na máquina; existe apenas a vibração do maquinário. Sua cabeça contém 100 bilhões de células elétricas, mas nenhuma delas é você, e tampouco o conhece ou se importa com você. Na verdade, você nem mesmo existe. O cérebro não é nada além de uma regressão infinita de matéria, redutível às insensíveis leis da física.
O problema com esse método é que ele nega o próprio mistério que ele precisa resolver. A neurociência distingue-se por desemaranhar os mistérios da mente de baixo para cima. Mas nossa autoconsciência parece exigir uma abordagem de cima para baixo. Como escreveu o romancista Richard Power, “se conhecêssemos o mundo apenas através de sinapses, como poderíamos conhecer a sinapse?”. O paradoxo da neurociência é que seu surpreendente progresso expõe as limitações de seu paradigma, na medida em que o reducionismo não é capaz de explicar nossa mente emergente. Muitas de nossas experiências permanecem fora de seu alcance.
Este mundo da experiência humana é o mundo das artes. O romancista e o pintor e o poeta abraçam esses aspectos efêmeros da mente que não podem ser reduzidos, ou dissecados, ou traduzidos na atividade de um acrônimo.



