Foto: Nina Maria Mudita
É uma da tarde de uma quinta e Dianne Bates, 40, se divide entre três telas. Escuta música em seu iPod, dedilha um e-mail rápido em seu iPhone e presta atenção a uma TV de alta definição.
Apenas mais um dia na academia.
Enquanto se dedica a múltiplas tarefas, a sra. Bates agita as pernas na máquina elíptica de uma academia do centro da cidade. Ela está em boa companhia. Em academias e por toda parte, as pessoas usam seus celulares e outros aparelhos para fazer o seu trabalho ― e como um confiável antídoto contra o tédio.
Celulares, que nos últimos poucos anos se tornaram computadores completos, com acesso rápido à internet, permitem que as pessoas aliviem o tédio do exercício, da fila no mercado, dos semáforos ou da calma conversa durante um jantar.
A tecnologia entretém os menores intervalos de tempo, e torna-os potencialmente produtivos. Mas os cientistas apontam um efeito colateral inesperado: quando as pessoas mantêm seus cérebros ocupados com informações digitais, estão confiscando um período de inatividade que poderia permitir melhorar o seu aprendizado e sua memória, ou permitir o surgimento de novas ideias.
The New York Times, 24/8/2010
É impressionante como o artigo acima parece contradizer as lições mais básicas de meditação, e como a mente evita o tédio e procura entretenimento e produtividade. Volta e meia nos perguntamos em Dharma/Arte sobre a frequência e a intensidade com que nos dedicamos a tarefas diferentes. Muitas vezes, situações como a descrita no New York Times parecem mais uma obra de ficção. Ou é uma situação mais comum do que imaginamos?
Como você se relaciona com a tecnologia para dedicar-se a diferentes tarefas? Sua experiência pessoal é tão intensa como a de Dianne? Você acha que é verdadeiramente produtiva?
Uma pessoa se cansa de viver no campo, e muda-se para a cidade; cansa-se de sua terra natal, e viaja pelo mundo; cansa-se da Europa e vai para a América, e assim por diante; finalmente sucumbe à esperança sentimental de jornadas sem fim, de uma estrela a outra. Ou o movimento é diferente, mas ainda assim infindo. Cansa-se de seus pratos de porcelana e come com os de prata; cansa-se da prata e a troca pelo ouro; põe fogo em metade de Roma para ter uma ideia do incêndio de Troia. Esse método, no entanto, derrota a si mesmo, ele simplesmente não tem fim.
Meu próprio método não consiste em tal mudança de campo, e sim se parece com o verdadeiro método da rotatividade, que alterna a safra e o método de cultivo, e não o campo. Aqui temos o princípio da limitação, o único princípio que pode salvar o mundo. Quanto mais nos limitamos, mais férteis nos tornamos na imaginação.
Søren Kierkegaard, citado por Bill Scheffel em O princípio do drala
Há mais de mil anos, Padmasambhava, o grande mestre que levou o budismo da Índia para o Tibete, predisse que esta idade das trevas em especial seria caracterizada por uma inteligência cada vez maior. A mente discursiva correria desenfreada. Criaríamos miríades de maneiras para manter-nos entretidos, tornando-nos peritos em ocupar nosso tempo livre. Não usaríamos mais o intelecto para promover o aperfeiçoamento, mas para passar o tempo imersos nessa ou naquela forma de distração, em férias constantes. Padmasambhava predisse que, conforme nos tornássemos mais sagazes e inteligentes, a compaixão seria vista como algo cada vez mais fútil, e perderíamos o conhecimento de como trazer significado à vida. Nosso cavalo-de-vento enfraqueceria. Ao mesmo tempo, o número de armas, doenças e pessoas famintas cresceria. As emoções negativas também aumentariam, e a motivação para levar uma vida significativa — uma vida virtuosa — desvaneceria. A aparência física se deterioraria à medida que processássemos essa negatividade.
É assustador constatar a precisão dessas previsões. Ao longo dos últimos cem anos, uma engenhosidade cada vez maior resultou em tecnologias que melhoraram a vida de muitas maneiras. Ao mesmo tempo, elas aumentaram a capacidade de distrair a mente. Estamos aprisionados na crença de que adquirir coisas nos fará felizes. As cores do medo ameaçam tudo o que fazemos. O medo gera a covardia; a compaixão parece ser pouco realista, e a raiva parece ser mais prática. Quando permitimos que o pensamento discursivo e as emoções negativas corram soltas, enfraquecemos o cavalo-de-vento e produzimos nossa própria idade das trevas.Nesta era das trevas, a distração freqüentemente se manifesta como agitação. A agitação aniquila o espaço no qual poderíamos apreciar o que estamos fazendo. Esse frenesi cria seu próprio poder e momento, que passam a nos governar. Como não podemos repousar no presente, não conseguimos ficar satisfeitos; conduzimos a vida de maneira agressiva. Valemo-nos da inveja, da competição, da obsessão e da irritação, tentando cumprir com compromissos, telefonemas, reuniões — qualquer coisa necessária para levar-nos aonde acreditamos que precisamos ir. Quando temos um dia difícil, é porque essas emoções negativas estão criando obstáculos para o “eu” ao longo do caminho. Como os quebra-molas que nos forçam a reduzir a velocidade, esses obstáculos nos dizem para ir mais devagar e utilizar o payu. No entanto, sem a brandura do tigre, não conseguimos ouvi-los.Para ter domínio sobre a vida, precisamos primeiro ser capazes de reconhecer como bloqueamos o caminho que leva à nossa própria satisfação. Na prática da meditação sentada, tentamos penetrar o exterior agitado reduzindo as atividades e estabilizando a capacidade de estar presentes. Em seguida, levamos essa prática para nosso dia, refletindo continuamente sobre o que cultivar e o que descartar, a fim de fortalecer o cavalo-de-vento. Percebemos que querer estar em qualquer local diferente daquele onde estamos e fazer qualquer coisa diferente da que fazemos no momento são movimentos desnecessários, que nos desequilibram. Recuperamos o equilíbrio utilizando o payu. Com o discernimento do tigre, aprendemos a diminuir a marcha, olhar para onde estamos e apreciar a situação.
Sakyong Mipham Rinpoche, Governe seu mundo